Confesso que não nasci cercado por livros e tampouco cresci imaginando que a literatura pudesse atravessar a vida como força de inclusão e transformação. Sou, na verdade, um novo entusiasta da palavra escrita, alguém que se apaixonou por ela muito recentemente, após mergulhar na criação da minha primeira obra. Essa descoberta tardia me surpreendeu porque não nasceu apenas da leitura, mas de um reconhecimento íntimo de que a narrativa pode construir pontes para dentro de nós mesmos.
Ao iniciar O Menino do Canto do Junco, percebi que não estava apenas registrando lembranças, fatos ou memórias dispersas. Estava entrando em um território que, apesar de novo, me era profundamente familiar. A escrita revelou que narrar é uma forma de existir, de se reencontrar com aquilo que a vida tentou silenciar ou esconder. Por isso afirmo, com convicção, que a literatura é um dos mais poderosos mecanismos de inclusão que este país já produziu.
Minha compreensão sobre esse poder ganhou profundidade quando revisitei obras que moldaram a sensibilidade literária brasileira. A insurgência de Carolina Maria de Jesus em Quarto de Despejo, a humanidade resistente de Fabiano e Sinhá Vitória em Vidas Secas e a força ancestral das escrevivências de Conceição Evaristo me mostraram que a literatura não nasce apenas da imaginação. Ela também é da urgência de existir. Cada uma dessas obras carrega vidas que o Brasil tentou esquecer e, ao fazê-lo, rompe barreiras invisíveis que sempre separaram quem escreve de quem é escrito.
Foi nesse contexto que entendi o papel do meu próprio livro. Ao narrar a trajetória de um menino criado na roça, entre a taipa, o barro e os medos das travessias escuras, percebi que estava oferecendo um espelho para milhares de infâncias que raramente chegam às páginas da literatura. Esse gesto íntimo e público, ao mesmo tempo, me transformou em alguém fascinado pelo alcance da palavra. Pela primeira vez, compreendi que a literatura não é apenas arte, mas um ato de reconhecimento e de devolução de dignidade.
A literatura inclui porque reconhece. Inclui porque humaniza. Inclui porque rasga o silêncio. E inclui sobretudo porque permite que pessoas que viveram às margens ocupem o centro da narrativa de forma íntegra. Não como caricaturas, não como vítimas eternas, mas como seres humanos completos, complexos e reais.
Hoje vejo o menino do Canto do Junco como parte de uma linhagem de personagens e pessoas que jamais tiveram voz suficiente nas narrativas oficiais. A literatura, porém, lhes oferece esse espaço, e é nesse gesto que reside sua força transformadora. Embora eu tenha chegado tarde a essa compreensão, talvez seja justamente por isso que ela me atravessa com tanta intensidade.
A literatura me transformou ao me permitir escrever. E, quando alcança alguém que nunca se viu em um livro, transforma de novo. No fundo, ela molda o mundo aos poucos, mudando primeiro os mundos individuais de cada leitor e cada escritor que encontra no papel sua própria existência.
Falo da literatura com entusiasmo porque fui tocado por ela de forma irremediável. E enquanto houver histórias dispostas a emergir da margem e leitores capazes de escutá-las, a literatura continuará sendo, no Brasil, uma das mais profundas ferramentas de inclusão e transformação que já criamos.


