Há algo de misterioso no instante em que a vida muda de curso. Às vezes, é um gesto, um reencontro, uma lembrança que insiste em voltar. Outras vezes, é o silêncio. E foi nele que a literatura me encontrou.
Não sei dizer se comecei a escrever por necessidade ou por obediência a algo maior. Só sei que as palavras começaram a me procurar, uma a uma, como quem tenta reconstruir uma casa antiga a partir dos cacos da memória. Percebi que as lembranças também têm sons, cheiros e cores, e que algumas ainda vivem dentro da gente como se não tivessem passado.
Durante meses mergulhei no que fui. Reencontrei o menino do interior, as vozes das minhas origens, o peso e a leveza de ter vindo de um chão que ensina mais com o sol do que com os livros. Houve dias em que chorei diante de uma página em branco, não por falta de palavras, mas por excesso delas. Outras vezes, escrevi de madrugada, ouvindo o vento e sentindo que não estava só. Cada frase que eu escrevia era como dar mais um passo nesse caminho de volta que eu nem sabia que ainda existia.
A obra está praticamente pronta. E digo isso com o coração em paz, porque não se trata apenas de um projeto, mas de um gesto de reconciliação com o tempo. Nela, revisito lugares, pessoas e sentimentos que ajudaram a me formar. Não é apenas uma história pessoal; é um mapa afetivo do que somos quando decidimos não desistir.
Escrever me mostrou que a literatura não é um abrigo distante das realidades do mundo. É um modo de resistir. É o espaço onde a dor encontra sentido, onde o passado deixa de ser ferida e vira fundamento. Hoje percebo que minha biografia foi apenas o primeiro portal, porque quando o autor termina de escrever sobre si, descobre que há muito mais por dizer sobre o outro, sobre o que o cerca, sobre o próprio país.
Foi escrevendo que entendi que não há fronteira entre o menino do sertão e o homem que sonha com um Brasil mais justo e mais sensível. Tudo faz parte da mesma travessia.
Por isso, não sei se posso dizer que escrevi um livro. Talvez tenha sido o livro que me escreveu. Ele me exigiu mais do que horas de trabalho; exigiu entrega, coragem e, acima de tudo, verdade. Foi preciso encarar memórias antigas, revisitar dores, conversar com fantasmas e, no fim, tentar transformar tudo isso em alguma forma de beleza.
Hoje percebo que me apaixonei pela literatura como quem descobre um novo amor depois de muitas tempestades. Não foi uma paixão qualquer. Foi um encontro, desses que a gente entende devagar, mas sabe que veio pra ficar.
Este texto é uma forma de agradecer. A todos que me inspiraram, que me deram motivos, que me ajudaram a permanecer de pé quando o mundo parecia desabar. À família, aos amigos de infância, aos colegas de jornada, aos que acreditaram mesmo sem entender direito o que eu buscava. E aos leitores que ainda nem sabem que são parte desta história.
Sigo com o coração cheio de esperança e o silêncio necessário de quem prepara algo maior. Em breve, o tempo revelará o que hoje prefiro guardar comigo. Mas posso afirmar que, quando esse momento chegar, não será apenas um livro sendo lançado. Será o nascimento de uma nova forma de estar no mundo, mais inteira, mais consciente e mais fiel às minhas raízes.
A palavra acabou virando casa. E, dentro dela, aprendi o que é permanecer.


