Nos últimos dias, discussões sobre a história da minha terra natal voltaram ao debate popular. É justo reconhecer o trabalho de pesquisadores e historiadores locais, como Geraldo Francisco das Chagas e outros, que se dedicam ao resgate e à preservação de valor imensurável da nossa memória. Graças a eles, tradições, fatos e relatos que poderiam se perder estão sendo documentados e compartilhados, oferecendo uma base sólida para entendermos nosso passado. Mas é necessário refletir sobre como essa história tem sido contada e quem, de fato, aparece nela.
Ao revisitar a trajetória do Brejo do Apodi, que mais tarde passou a se chamar Pedra de Abelha e, finalmente, Felipe Guerra-RN, somos convidados a lembrar altos sótãos sobre carnaubeiras seculares e a admirar os casarões de famílias senhoriais que, segundo os registros, teriam erguido o progresso com suas próprias mãos. Histórias de coronéis, comerciantes e médicos que fundaram escolas, construíram capelas e moldaram cidades. Muitos desses coronéis não serviram às Forças Armadas. Seus títulos refletiam, na verdade, poder econômico e posse de grandes propriedades, estas adquiridas ou herdadas.
A narrativa oficial se concentra nos donos da terra, mas esconde um detalhe essencial: a história do nosso povo é também a história de mãos incansáveis que, desde os primeiros habitantes, construíram o Brejo do Apodi até que a comunidade se desenvolvesse e chegasse à cidade que Felipe Guerra é hoje. Quem carregava o gado, cultivava a cana, o algodão e o arroz? Quem construiu as casas, abriu caminhos e sustentou o comércio nascente? Não eram os filhos das famílias senhoriais. Eram peões, agregados, trabalhadores libertos e descendentes de escravizados, muitas vezes remunerados com migalhas, produtos ou moradia, vivendo numa dependência que misturava sustento e subordinação. Eram eles os construtores silenciosos da riqueza que, nos livros de história local, aparece como mérito exclusivo das famílias de sobrenome sonoro.
O mestre-escola que ensinava na primeira escola, o comerciante que fornecia para o armazém e o agricultor que levava sua produção à feira livre eram peças essenciais desse ecossistema de desenvolvimento. Ainda assim, suas vidas raramente encontram espaço nas páginas que celebram o primeiro marco do progresso. É uma história contada de cima para baixo, onde o protagonismo é reservado aos que detinham terras, capital e títulos, enquanto os braços que realmente erguiam casas, lavouras e cidades permanecem invisíveis.
Como jornalista de origem afrodescendente mista, sinto a necessidade de olhar para essa história com honestidade, sem derrubar legados ou apagar nomes, mas trazendo à luz aqueles que sempre foram esquecidos. Nossa história não pode se limitar ao brilho dos casarões e aos cascos de cavalo de quem comandava o comércio local. Ela deve incluir a dor, a resistência e a criatividade dos trabalhadores que, sem glória ou registro, construíram a base sobre a qual se ergueu o progresso que hoje celebramos.
Recontar essa história não é reescrever o passado, é completar o retrato. É admitir que o crescimento de Brejo do Apodi, Pedra de Abelha e, finalmente, Felipe Guerra-RN sempre foi fruto de esforço coletivo, muitas vezes anônimo e invisível. É reconhecer que a memória precisa fazer justiça aos esquecidos, mesmo que isso provoque desconforto aos que cresceram ouvindo apenas a versão romântica de coronéis de posses e senhores de terra.
A verdadeira história do nosso povo não cabe apenas em mansões. Ela está nos braços calejados, nas mãos que semearam, colheram, construíram, ensinaram e sobreviveram. Esta reflexão de hoje é dedicada ao meu povo, como convite para que todos olhem para a história com atenção, consciência e senso crítico. Voltaremos a revisitar este tema e muitos outros que constroem a memória do nosso povo, buscando compreender a história em toda a sua complexidade. Nossa história verdadeira vive nos braços que construíram, sem glória, mas com coragem.

