Um novo gênero e espécie de crustáceo encontrado em cavernas da Formação Jandaíra, no Rio Grande do Norte e no Ceará, foi oficialmente descrito pela ciência. Batizado de Bralilana spelaea, o animal pertence à família Cirolanidae — predominantemente marinha — e é considerado um “relicto oceânico”, resultado de ancestrais presos em ambientes subterrâneos quando o nível do mar recuou, milhões de anos atrás.
Segundo o pesquisador Diego Bento, analista ambiental do ICMBio/Cecav e doutor pelo Programa de Pós-Graduação em Sistemática e Evolução da UFRN, trata-se da espécie troglóbia (exclusivamente subterrânea) mais emblemática do estado. “É uma espécie emblemática porque foi a primeira troglóbia encontrada no RN. Ela marca o início das pesquisas em biologia subterrânea na região e abriu caminho para a descoberta de dezenas de outros organismos adaptados ao ambiente das cavernas”, explica.
A primeira ocorrência foi registrada no município de Felipe Guerra, durante prospecções espeleológicas. A espécie chamou atenção por integrar uma família de animais marinhos que, no Rio Grande do Norte, desenvolveram adaptações únicas ao ambiente subterrâneo, como perda de visão, ausência de pigmentação e maior desenvolvimento de estruturas sensoriais.
A pesquisa foi coordenada pelo Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Cavernas (CECAV), ligado ao ICMBio, e contou com participação decisiva da UFRN. O doutorado de Diego Bento, orientado pelo professor Sérgio Lima, analisou o DNA de diferentes populações e confirmou que se trata de uma única espécie distribuída por vários municípios do estado. “A UFRN esteve presente tanto nos primeiros registros como agora, na identificação molecular e descrição morfológica da espécie”, reforça o pesquisador.
O reconhecimento científico de Bralilana spelaea é considerado um marco para a conservação. A partir da descrição, a espécie pode ser incluída em avaliações oficiais de risco de extinção, tornando-se potencialmente prioritária em ações de preservação. “Com essa descrição, damos visibilidade a um organismo que já era conhecido há mais de 20 anos, mas que agora existe formalmente para a ciência. Isso abre espaço para políticas de conservação voltadas aos seus habitats”, afirma Diego.
Atualmente, o Rio Grande do Norte concentra uma das maiores comunidades de espécies troglóbias da América do Sul. São 104 conhecidas, mas apenas 12 já descritas — agora incluindo Bralilana spelaea. A expectativa é ampliar esse número até o próximo ano. “Nosso objetivo é chegar a pelo menos 20 ou 25 espécies. É um avanço, mas ainda temos muito trabalho pela frente”, completa o pesquisador.
*Com informações da UFRN


