A governadora Fátima Bezerra (PT) é um dos fenômenos mais curiosos da política potiguar recente. Professora, militante histórica e protagonista de embates duros contra as oligarquias locais, ela conquistou espaço e respeito por sua resiliência. Foi capaz de um feito que parecia impensável: atrair para o seu projeto de poder o MDB de Garibaldi e Walter Alves — adversários que, durante anos, ela acusou de “golpistas”. Venceu Carlos Eduardo Alves numa eleição que ele chegou a liderar as pesquisas e, no pleito seguinte, foi reeleita no primeiro turno, conseguindo ainda trazê-lo para o seu palanque, esvaziando e praticamente sepultando sua força política.
Mas o ciclo que parecia de hegemonia absoluta agora dá sinais claros de esgotamento. Mal avaliada pela população, Fátima não conseguiu entregar resultados à altura das expectativas do Rio Grande do Norte — nem mesmo com Lula de volta ao Planalto. Não formou um sucessor competitivo para a disputa estadual que se aproxima e, ironicamente, vê sua própria volta ao Senado ameaçada por nomes até então considerados “menores”, como Zenaide Maia (PSD).
A imagem de força e articulação transformou-se em um retrato de desgaste. Enquadrada pelo Tribunal de Contas do Estado diante do rombo de R$ 54,3 bilhões na previdência estadual, Fátima parece ansiosa para passar a “bomba” para o vice Walter Alves. Embora já tenha anunciado um nome do próprio PT, a impressão é que, no fundo, ela torce para que Walter aceite um segundo sacrifício: substituir o pouco competitivo Cadu Xavier como candidato ao governo.
Suas agendas pelo interior do estado tornaram-se discretas e protocolares. A governadora evita entrevistas longas e perguntas duras — feitas apenas por poucos profissionais de imprensa dispostos a furar a blindagem de seus assessores. O tom é de retração; a postura, de quem percebe o quão falhou.
Ao longo de dois mandatos, o governo de Fátima Bezerra ficou marcado pela ausência de grandes entregas estruturantes. Mal conseguiu manter a folha em dia, apesar de o estado registrar recordes sucessivos de arrecadação. Muitos prefeitos — inclusive aliados — tiveram que buscar apoio em Brasília junto a deputados do Centrão e até senadores de direita, como Rogério Marinho (PL) e Styvenson Valentim (PSDB), dividindo-se entre suas convicções ideológicas e a razão prática ao lembrarem de quem, de fato, se serviram para manter seus municípios de pé. O isolamento político de Fátima é consequência direta dessa gestão ausente e pouco efetiva.
Enquanto isso, a governadora aparece em festas privadas entre amigos, canta refrões contra Bolsonaro e participa de eventos de aliados, como o aniversário da vereadora Samanda Alves (PT), passando a impressão de uma liderança que perdeu o pulso do estado e se refugiou no próprio círculo. A Fátima Bezerra que um dia surpreendeu a política potiguar parece hoje encarnar o destino comum dos governos que se desconectam do cotidiano do povo: desgaste precoce e perda de relevância.


