Localizado na região Oeste do Rio Grande do Norte, o município de Riacho da Cruz abriga cerca de 2,7 mil habitantes, segundo estimativas recentes do IBGE. Em 9 de maio de 2025, a cidade completou 63 anos de emancipação política, desde que foi desmembrada de Portalegre pela Lei Estadual nº 2.764, de 1962.
Desde sua emancipação, no início da década de 1960, Riacho da Cruz desenvolveu um modelo político ancorado em lideranças locais ligadas à vida rural e à estrutura comunitária, o que representa um traço marcante em grande parte dos municípios do interior potiguar. Com o passar do tempo, esse modelo deu origem a um ciclo de poder que se consolidou em torno da tradicional família Rêgo, presença dominante na história política da cidade nas últimas décadas.

Atualmente, o prefeito Marcos Aurélio de Paiva Rêgo, do Partido Progressista (PP), cumpre o quarto mandato à frente do Executivo. Ele governou o município entre 2005 e 2012, retornou ao cargo em 2021 após um intervalo de oito anos e foi reeleito em 2024 para o período de 2025 a 2028. Reconhecido pela experiência administrativa e perfil conciliador, Marcos Aurélio é uma figura central na política local e símbolo de continuidade no poder.
Sua prima, Maria Bernadete Nunes Rêgo Gomes, também já administrou o município quatro vezes, nos períodos de 1989 a 1992, 1997 a 2000, 2001 a 2004 e 2017 a 2020. Carismática e de estilo firme, Bernadete consolidou-se como uma das poucas lideranças femininas com longa trajetória no interior potiguar. Juntos, Marcos Aurélio e Bernadete somam oito mandatos no total, alternando-se na prefeitura e consolidando um ciclo de poder que molda a vida política e social de Riacho da Cruz há gerações.
A eleição de 2024 foi um retrato fiel desse cenário. Pela primeira vez, o pleito teve chapa única para prefeito. Marcos Aurélio foi reeleito sem adversários e todos os nove vereadores eleitos pertenciam ao PP, o que reforçou o domínio do grupo no Legislativo. Segundo observadores locais, a ausência de oposição direta reafirmou a força política da família Rêgo, mas também evidenciou a escassez de pluralidade partidária e a dificuldade de renovação dentro do município.

Nesse ambiente de hegemonia, o vice-prefeito Cláudio Uberlane de Sá, conhecido como Borracheiro, representa o elo entre a política tradicional e o eleitorado popular. Iniciou sua trajetória como vereador, assumiu o cargo de vice-prefeito em 2021 ao lado de Marcos Aurélio e foi reeleito em 2024 para o mandato que vai até 2028. Sua trajetória, marcada pela presença constante e pelo contato direto com a população, reflete o perfil de liderança comunitária que permanece relevante mesmo em contextos de poder consolidado.

Entretanto, entre a estabilidade do grupo dominante, uma nova liderança tem despertado atenção: o vereador Mailson Ribeiro. Filho da terra, Mailson ganhou projeção por seu trabalho nas áreas do esporte e das causas sociais. Embora filiado ao PP, tem adotado postura independente e dialogada, o que o destaca dentro do próprio grupo. Foi o vereador mais votado nas duas últimas eleições e vem sendo apontado por analistas regionais como um nome promissor para a sucessão de 2028.
Esse movimento de ascensão de novas lideranças, ainda discreto, simboliza uma transição silenciosa na política local. O modelo familiar que por décadas garantiu estabilidade e continuidade começa a dividir espaço com vozes que representam uma nova geração de eleitores, mais atentos à participação social e à necessidade de renovação.
O caso de Riacho da Cruz reflete um fenômeno comum no interior nordestino: a força das estruturas familiares como base do poder político. Em muitos municípios, essas redes de influência se sustentam não apenas pelo exercício da política formal, mas também pelos vínculos de confiança e pertencimento que se constroem ao longo de décadas.
Ainda assim, o crescimento da aceitação popular de nomes como Mailson Ribeiro indica que a comunidade começa a perceber a importância de renovar sem romper, de transformar sem apagar o que foi construído. O futuro político de Riacho da Cruz dependerá, sobretudo, da capacidade do eleitorado de enxergar a política como um espaço de construção coletiva, onde tradição e mudança possam coexistir de forma equilibrada.
Mais do que um caso isolado, Riacho da Cruz é o retrato de muitas pequenas cidades brasileiras, onde o poder político se confunde com a própria identidade comunitária. Talvez o futuro do município não dependa apenas do que a tradição conserva, mas do que o novo é capaz de construir a partir dela.


