Continuando minhas reflexões sobre a história da minha terra natal, o ponto que quero abordar desta vez é uma rediscussão desejada por muitos desde a emancipação política, mas que, inegavelmente, sempre foi negligenciada: o nome da cidade. Tocar nesse tema exige coragem, pois envolve afetos, memórias e estruturas históricas. Mas amar verdadeiramente nossa terra é também cuidar da sua identidade e zelar pela verdade dos fatos.
E aqui preciso afirmar com clareza: o que digo sobre o processo de criação do município está embasado em documentos oficiais da época, aos quais tive acesso. Com base neles, fica evidente que toda a atenção do processo legislativo se concentrou na emancipação, mas não há registro de debate público sobre alternativas de nomes ou sobre a participação popular na escolha da denominação do município. O nome “Felipe Guerra” surgiu pronto desde o início, definido em gabinetes, sem consulta ao povo. Ou seja, somos uma cidade que nasceu sem ser ouvida sobre a questão que mais expressa sua alma: o nome.
Mas nossa história não começou com a lei de criação. Antes de sermos cidade, fomos Brejo do Apodi e, depois, Pedra de Abelha, um nome que continua vivo, pulsando nas tradições, nos comércios, nas festas, nos projetos sociais e nas lembranças de infância que guardamos com orgulho. Pedra de Abelha não é apenas uma denominação antiga; é a expressão de uma identidade que resiste.
Não se trata de negar a importância ou o legado de Felipe Neri de Brito Guerra, cuja trajetória merece reconhecimento. A homenagem pode até ter sido justa. O que se questiona é o método pelo qual essa homenagem foi imposta, sem debate, sem alternativas, sem voz popular. O problema não está no nome em si, mas no fato de ele ter sido definido de cima para baixo, silenciando uma identidade que o povo já possuía.
Como jornalista e filho desta terra, acredito que amadurecemos o suficiente para enfrentar esse tema com serenidade e responsabilidade. Não se trata de apagar o passado, mas de completá-lo com democracia. Se outros municípios já revisaram nomes impostos e restauraram suas identidades originais com base na participação popular, por que nós não podemos? O que nos impede? Medo? Conformismo? Falta de amor pela própria história?
Defendo que tenhamos coragem e zelo para reabrir essa discussão. Que escutemos nossa memória, nossa cultura e a voz do povo. Que reconheçamos que identidade não se impõe, se constrói. E, se ao final desse processo surgir a necessidade de decisão formal, que avancemos com o instrumento mais justo da democracia: o plebiscito.
Reabrir esse debate não é viver do passado. É recuperar nossa voz. É olhar para nós mesmos com coragem, amor e responsabilidade.
E eu, como filho desta terra, estou pronto para isso, porque quem ama sua origem, não teme recontar sua história.


