Depois de São Paulo registrar ao menos cinco mortes suspeitas ligadas ao consumo de bebidas adulteradas com metanol, o alerta chegou ao Nordeste. Pernambuco confirmou, nesta quarta-feira (1º), três casos suspeitos de intoxicação: dois homens morreram e um terceiro sobreviveu, mas perdeu a visão dos dois olhos como sequela permanente.
Os pacientes foram atendidos no Hospital Mestre Vitalino, em Caruaru. Assim que recebeu a notificação, a Agência Pernambucana de Vigilância Sanitária (Apevisa) desencadeou ações de fiscalização em distribuidoras de bebidas alcoólicas. A Secretaria Estadual de Saúde (SES-PE) deve publicar ainda nesta semana orientações para a população e reforçar as medidas junto às vigilâncias municipais.
Sintomas e riscos
Os sintomas iniciais de intoxicação por metanol se confundem com os efeitos do álcool comum: náuseas, vômitos, dor abdominal e sonolência. Porém, entre 6 e 24 horas após a ingestão, podem surgir manifestações graves, como visão turva, fotofobia, cegueira, convulsões e até coma.
A Apevisa reforçou a necessidade de notificação imediata de casos suspeitos ao Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) e ao Centro de Informações Estratégicas em Vigilância em Saúde (Cievs/PE). O órgão também orienta a busca ativa de pessoas que possam ter consumido bebidas da mesma origem.
Situação em São Paulo
Em São Paulo, onde os primeiros registros ocorreram, ao menos cinco mortes estão sob investigação. O governo paulista confirmou uma delas como resultado direto da intoxicação por metanol. Outras quatro seguem em análise laboratorial. Além disso, 15 casos prováveis estão sendo monitorados em cidades como São Paulo, São Bernardo do Campo, Limeira e Itapecerica da Serra.
As vítimas apresentam diferentes quadros clínicos, mas pelo menos três permanecem internadas em estado grave. Um jovem de 27 anos está em coma há mais de 20 dias; uma mulher perdeu a visão dos dois olhos; e outro homem sofreu AVC após a intoxicação.
Fiscalização e interdições
A Vigilância Sanitária interditou ao menos três bares e uma distribuidora suspeitos de comercializar bebidas adulteradas. Entre os estabelecimentos estão o bar Ministrão, nos Jardins, e o bar Torres, na Mooca, ambos na capital paulista. A distribuidora localizada na Vila Mariana e um bar em São Bernardo do Campo também foram fechados.
Enquanto os donos do bar Torres afirmam colaborar com as investigações e negam irregularidades na compra de bebidas, o bar Ministrão não se manifestou publicamente e chegou a deletar seu perfil das redes sociais.
Investigação federal
A Polícia Federal abriu inquérito para investigar a rede de distribuição das bebidas adulteradas. Segundo o ministro da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Lewandowski, a apuração busca esclarecer se há envolvimento de organizações criminosas.
— “A investigação dirá se tem conexões com o crime organizado”, disse o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues.
Já o governo de São Paulo divergiu da análise federal e afirmou que, até o momento, não há indícios de participação do crime organizado.
O Ministério da Saúde, por sua vez, anunciou que publicará uma nota técnica para orientar profissionais de saúde sobre a definição de casos suspeitos e protocolos de atendimento.
Debate sobre controle da produção
Em meio aos casos de mortes e de cegueira provocados pelo consumo de bebidas adulteradas, a discussão sobre o controle e a fiscalização da produção voltou ao centro do debate nacional.
Nesse contexto, a recente decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Cristiano Zanin, ganhou relevância. Em abril, ele suspendeu uma determinação do Tribunal de Contas da União (TCU) que exigia a reativação do Sistema de Controle de Produção de Bebidas (Sicobe), ferramenta que permite rastrear a fabricação e a circulação de bebidas alcoólicas e refrigerantes no país.
O Sicobe havia sido desativado após questionamentos judiciais e resistências de parte do setor produtivo. Para especialistas em saúde pública e autoridades de fiscalização, a retomada do sistema poderia dificultar a atuação de falsificadores e reduzir os riscos de adulteração, como os que agora resultam em mortes e sequelas graves.
Alerta nacional
Com a confirmação de casos fatais em diferentes estados, autoridades alertam para o risco de subnotificação. A população é orientada a verificar sempre a procedência das bebidas alcoólicas, evitando produtos sem rótulo, de baixo custo ou adquiridos em locais não fiscalizados.


