Há algum tempo, tenho dividido com familiares e amigos que acompanham minha caminhada o processo de construção da minha primeira obra literária.
Naturalmente, surgem perguntas: do que trata, se é uma autobiografia, se fala de política, de fé, de superação. E todas são legítimas. O que está por nascer não pertence apenas a mim. Pertence também às histórias que, de alguma forma, se cruzaram com a minha.
Não é fácil escrever sobre a própria vida.
Não por falta de coragem, mas porque é preciso desaprender a defesa e reaprender o olhar.
O olhar que não julga, apenas reconhece.
O livro que escrevo é, antes de tudo, uma reconciliação com o tempo.
Com o tempo que passou, com o tempo que ficou e com o tempo que ainda me pede respostas quando o silêncio é maior que a memória.
Não se trata apenas de mim.
Trata-se do menino que muitos já foram, das travessias que o sertão impõe, dos silêncios que moldam a alma e das quedas que, em vez de derrota, viram lição.
O leitor encontrará fragmentos de dor e de fé, mas também o retrato de um país que resiste em cada esquina, em cada história simples, em cada nome que carrega o peso e a bênção de existir.
Não escrevo para ser lembrado. Escrevo para lembrar.
Lembrar de onde vim, lembrar do que vi, lembrar de quem me fez seguir.
E, se no caminho o leitor se reconhecer em alguma página, é porque, como já disse, essa história não é só minha.
Ainda não posso revelar o título nem o conteúdo em detalhes.
Mas posso garantir que o livro não nasceu de um capricho.
Nasceu da necessidade de contar o que nunca coube em discursos, postagens ou entrevistas.
Nasceu de uma vida inteira que aprendeu a ver valor onde o mundo via pouco.
Nasceu da fé que se fez palavra e da palavra que, enfim, aprendeu a respirar.
Não o chamo de autobiografia.
Prefiro pensar que é uma travessia escrita.
Um pedaço de verdade que, ao sair do peito, se tornou palavra.
E talvez esperança.


