Assisti a dois debates na Band no último domingo. Foi uma proeza assistir a dois debates paralelos, mas acho que consegui captar a essência dos dois. Vi os debates dos candidatos ao governo do RN e dos candidatos ao governo de SP. A primeira impressão que ficou entre os dois foi a diferença de nível. No debate paulista, os candidatos fizeram uma abordagem mais inteligente dos temas e com argumentação mais bem arrazoada. No debate potiguar há uma pobreza de argumentos, uma lenga lenga sem fim de acusações e insinuações. Um vazio de ideias e propostas.
BOAS INOVAÇÕES DOS DOIS DEBATES
Percebi duas diferenças nos dois eventos em relação aos modelos de debates que temos assistido via de regra nas campanhas políticas. No debate da Band no Rio Grande do Norte foi dado a cada candidato um bloco inteiro para ser perguntado e responder aos questionamentos, de tal forma que cada debatedor teve um bom tempo no seu bloco para expor suas ideias e propostas. No debate paulista a inovação foi dar ao candidato perguntado um tempo maior para que ele usasse na resposta e na tréplica, sendo que cada um administrava como usaria este tempo, se demoraria mais na resposta ou se usaria mais tempo na tréplica. Acabou sendo uma boa ideia porque não engessa tanto os tempos de respostas.
FÁBIO DANTAS OPTOU POR SER METRALHADORA
Bom, vamos então ao conteúdo dos debates. Primeiro, sobre o debate no Rio Grande do Norte. Chamou minha atenção o tom acusatório geral do debate. Todo mundo bateu em todo mundo. Fábio Dantas levou quase todo seu tempo em atacar Fátima Bezerra, deixando de lado a possibilidade de apresentar propostas, demonstrar conhecimento dos problemas e se apresentar ao eleitor como alguém pronto e confiável para governar o Estado. Como estratégia de marketing, Fábio acredita que ganhará votos minando a gestão de Fátima, como se o eleitor não tivesse capacidade própria de fazer esta avaliação e tivesse vivido em Marte nestes quatro anos da gestão petista. Fábio fez o que todo adversário faz, atacou, atacou e atacou. Esqueceu que sua missão é se mostrar com qualidades para merecer o voto do eleitor que está à procura de melhores opções para o Estado. Num único momento que tentou falar de propostas, ele se enrolou com uma tal de pactuação na educação fundamental. Fábio preferiu a velha tática de achar que ganha eleição apenas no desmerecimento do adversário.
FÁTIMA VAI TENTAR VINCULAR ROBINSON E FÁBIO
Fátima Bezerra dividiu seu tempo entre se defender das estocadas de Fábio Dantas e tentar apresentar algo positivo de sua gestão. Como estratégia mirou na vinculação de Fábio com Robinson Faria e não perdeu nenhuma oportunidade de alvejar o candidato nesse tema. Não foi tão agressivo quanto Fábio nas acusações, mas deixou claro que o foco do seu marketing é oferecer um contraste no que foi sua gestão com a gestão de Robinson, principalmente no tocante ao atraso de salários e no seu papel de reconstruir o RN. Nesse meio de caminho, aproveita para grudar a imagem de Fábio a Robinson. Dada a insistência com que Fátima seguiu nessa toada, é certo que a artilharia de ataque já tem alvo definido.
UM REDENTOR OFERECIDO AO SACRIFÍCIO
Sobre Styvenson Valentim, é um exercício mental tentar decifrar seu papel no debate. O próprio Styvenson passa a sensação que ele não sabe o que está fazendo ali. Sem projetos para o Estado, coisa que ele diz até com certo orgulho, deixa a entender que está ali sem querer estar. O senador passou o debate inteiro descompromissado com as perguntas e com as respostas. Disse o que lhe deu na telha, com pouquíssimo conteúdo e muito arroubos da antipolítica. A impressão que se tem de Styvenson é que na sua visão a responsabilidade é do eleitor em desejar elegê-lo ou não, não dele em se oferecer como candidato. Ele não está preocupado com propostas ou com compromissos, seu nome está posto como uma espécie de oferta ao eleitor caso deseje votar no diferentão. Já disse que não pedirá votos e que nem deseja ser candidato, está indo numa espécie holocausto pessoal, oferecendo-se em sacrifício para a redenção do Rio Grande do Norte.
PODERÍAMOS PASSAR SEM ESSE DEBATE
A impressão que eu fiquei sobre o debate nos candidatos do nosso Estado foi de estarmos indo do nada para canto nenhum. Poderíamos muito bem passar sem ele. Não acrescentou nada sobre as informações que o eleitor já dispõe. Serviu apenas como cumprimento de um ritual de campanha para o deleite das militâncias remuneradas. A continuar assim, Fátima já deve começar a pensar no seu discurso de posse, seus adversários parecem ser mais do mesmo.
COMO FOI O DEBATE DE SÃO PAULO
Bom, sobre o debate em São Paulo, gostei do nível das perguntas e respostas. Eram cinco candidatos debatendo e todos conseguiram, a seu modo, vender um pouco do produto que levaram para oferecer ao público. Tarcísio de Freitas deixou muito claro sua dificuldade em se assumir bolsonarista de carteirinha. Tentou meio que ser sem ser. É um desafio do seu marketing fazer essa costura de identidade. Ficou claro que todo mundo vai tirar uma casquinha em torno desta falta de identidade dele com São Paulo. Vai precisar ser inteligente para não se enrolar nessa teia.
HADDAD VAI TER GESTÃO CONFRONTADA
O Haddad poderia ter rendido mais. Seus adversários vão tentar tirar o foco da vinculação dele com Lula e laçá-lo com os aspectos negativos da sua gestão como prefeito de São Paulo. No debate, ele teve dificuldades com essas respostas. A campanha vai ser uma disputa de discursos, seus adversários vão querer mantê-lo no canto do ringue com essa lembrança sobre a gestão da Prefeitura de São Paulo. Houve uma tentativa também dos debatedores de acusar Haddad com o discurso conservador sobre valores da família, na demonização do PT, mas me parece que Haddad tem mais facilidade de sair-se bem deste tipo de ataque.
RODRIGO GARCIA E A PLUMAGEM TUCANA
Rodrigo Garcia, atual governador de São Paulo, conseguiu a proeza de não se deixar crucificar com sua vinculação com João Dória. Deve ter ficado aliviado porque seus contendores no debate não apertaram tanto nesse sentido. Esse deve ser seu calcanhar de Aquiles, mas nesse debate, escapou. Acredito que de todos foi quem se saiu melhor no debate, uma vez que até bem pouco tempo era azarão e hoje já está no retrovisor do líder nas pesquisas (Haddad). É um típico tucano, atacou sem demonstrar que estava atacando, utilizou ironias, escorregou sobre as obras paradas no Estado, mas, no geral, vendeu bem seu peixe. Vamos aguardar as próximas pesquisas em São Paulo para ver se esse debate teve capacidade de render alguma coisa aos debatedores.