A cena é emblemática e revoltante. Uma gestante de baixa renda, com gravidez de risco, sai de casa nas primeiras horas da manhã desta terça-feira, 17, em Areia Branca, com a expectativa de realizar exames de sangue previamente agendados pelo SUS. Ao chegar ao Hospital Sara Kubitschek, recebe uma informação tão absurda quanto desumana: os exames foram cancelados e não há qualquer previsão para remarcação.
O episódio, por si só, já seria grave. Mas está longe de ser isolado. Relatos semelhantes têm se repetido com frequência no município, evidenciando um padrão preocupante de desorganização, descaso e negligência na condução da saúde pública local, sob a gestão do prefeito Souza Neto (União Brasil).
Até pouco tempo, exames laboratoriais desse tipo eram realizados no próprio hospital municipal. A justificativa apresentada pela gestão é a realização de uma reforma na unidade. No entanto, o que causa perplexidade não é apenas a interrupção do serviço, mas a completa ausência de planejamento e respeito com a população. Pacientes continuam sendo surpreendidos apenas ao chegar ao hospital, sem qualquer comunicação prévia sobre os cancelamentos, uma falha básica que agrava ainda mais o sofrimento de quem já enfrenta fragilidades de saúde.

Mais grave ainda é perceber que havia alternativas viáveis e amplamente utilizadas na administração pública, como a formalização de convênios com clínicas privadas para garantir a continuidade dos atendimentos. A ausência dessa medida escancara não apenas ineficiência, mas uma preocupante falta de sensibilidade com vidas que dependem diretamente desses serviços.
Como se não bastasse o colapso operacional, a tentativa de silenciamento também chama atenção. Ainda na manhã desta terça-feira, nossa redação solicitou a um cidadão do município o registro de imagens no Hospital Sara Kubitschek. O que se viu foi um cenário de intimidação. O morador foi abordado por seguranças, ameaçado de prisão e impedido de fotografar um equipamento público de saúde.
A pergunta que fica é inevitável. É com truculência que a gestão municipal pretende lidar com o caos na saúde pública. Em vez de transparência, diálogo e solução de problemas, a administração opta por constranger e tentar calar quem busca mostrar a realidade.
Enquanto isso, cidadãos, especialmente os mais vulneráveis, seguem pagando o preço de uma gestão que falha no essencial, que é cuidar de gente.


