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Algodão: a cultura que volta às terras potiguares, mas sem repetir o que deu errado no passado

Há cerca de três décadas, quem percorria o interior potiguar via as manchas brancas das lavouras se espalhando pelo Seridó, Oeste e Vale do Açu, definindo praticamente todo o movimento de veículos, lojas e feiras em mais de 40 municípios. O algodão chegou a ocupar mais de 300 mil hectares, respondendo por quase 18% de todo o PIB agrícola do estado, movimentando 70 unidades de beneficiamento e sustentando direta ou indiretamente mais de 80 mil famílias. Hoje, quando muitos afirmam que o algodão está voltando, a notícia é verdadeira — mas não se trata de trazer de volta exatamente o que existiu antes.

Da glória ao colapso

Durante gerações, a paisagem foi dominada pelo algodão mocó ou arbóreo: planta adaptada naturalmente ao clima semiárido, que vivia de cinco a oito anos, com raízes profundas capazes de buscar água mesmo em períodos longos de estiagem. Sua fibra longa e fina era reconhecida internacionalmente como uma das melhores do mundo. Mas a partir de meados dos anos 1990, uma sequência de acontecimentos provocou o colapso quase total: a chegada do bicudo-do-algodoeiro sem nenhum plano estruturado de combate, o fim da política federal de garantia de preços mínimos, a abertura comercial que permitiu a entrada de fibra importada até 40% mais barata e a falta de investimentos em novas técnicas. Em poucos anos, a área plantada caiu para menos de 2 mil hectares, descaroçadoras fecharam as portas e milhares de pessoas deixaram o campo em busca de outra forma de sobrevivência.

O que está mudando no campo

A recuperação que vem se consolidando nos últimos quatro anos traz um perfil completamente novo para a cotonicultura potiguar. Na safra 2024/2025, já foram registrados entre 18 e 20 mil hectares plantados — quase dez vezes mais que o ponto mais baixo, mas ainda equivalente a apenas cerca de 6% do recorde histórico. A expectativa oficial da Conab e da Secretaria Estadual de Agricultura é chegar a 40 a 45 mil hectares até 2028, numa expansão calculada, lenta e atenta à realidade do mercado.

Geograficamente, a concentração continua nas mesmas regiões onde a cultura já se adaptava bem: o Seridó segue como principal polo, com destaque para Caicó, Currais Novos, Parelhas, Acari e Ipueiras; em segundo lugar aparece o Oeste Potiguar, com Mossoró, Apodi, Felipe Guerra e Alto do Rodrigues; seguido pelo Vale do Açu, onde a irrigação impulsiona os novos cultivos. O diferencial é que cerca de 65% das lavouras contam hoje com algum sistema de irrigação suplementar, reduzindo muito o risco de perda total com as secas.

O que se planta hoje

A composição genética também sofreu transformações profundas. Se antigamente predominava quase exclusivamente o mocó, hoje cerca de 90% da área é ocupada por variedades herbáceas melhoradas desenvolvidas pela Embrapa Algodão — como as linhas BRS 286, BRS 368 RF e BRS Acala — com ciclo curto, tolerância à seca, resistência genética a pragas e produtividade até três vezes superior às antigas versões. A Embrapa 113 representa um marco: o primeiro cruzamento oficial que reúne a rusticidade do mocó com o potencial produtivo do herbáceo.

O algodão mocó não desapareceu por completo: variedades aprimoradas como a Embrapa 112 seguem sendo cultivadas em menor escala, especialmente pela agricultura familiar e para produção orgânica. Uma novidade que não existia no passado são os algodões coloridos naturais — como BRS Rubi, Safira e Esmeralda — que dispensam o tingimento industrial e têm mercado crescente no segmento de moda sustentável.

Na comparação técnica da fibra: o mocó tradicional continua superior em comprimento, entre 30 e 32 milímetros, sendo ainda muito valorizado para tecidos de alta qualidade. As novas variedades, porém, já atingem de 28 a 31 milímetros, com resistência igual ou superior e uniformidade muito maior, reduzindo perdas durante o beneficiamento e a tecelagem. Ambas recebem classificação oficial de excelência.

Como está sendo viabilizado

A retomada conta com estrutura de apoio que não existiu no auge da cultura. O financiamento vem principalmente por meio de linhas específicas do Banco do Nordeste, via Pronaf e Prodetur, com taxas e prazos adaptados à realidade da lavoura. No plano legal, está vigente a Lei Estadual nº 10.987/2022, que instituiu o Programa Algodão Sustentável RN, com isenção parcial de ICMS, desconto no uso de águas públicas e prioridade na compra governamental. Há ainda o Fundo de Apoio à Recuperação da Cotonicultura, garantindo recursos para assistência técnica da Emater-RN e reestruturação da infraestrutura.

A remuneração também mostra por que o interesse voltou: a fibra em caroço é comercializada em média entre R$ 4,80 e R$ 6,20 o quilo, chegando a R$ 8,50 a R$ 10,00 já processada. O retorno líquido por hectare fica entre R$ 2,5 mil e R$ 3,8 mil, valor muito superior ao feijão, milho ou mesmo à fruticultura de sequeiro.

Do total produzido, cerca de 70% já é vendido por contratos prévios de fornecimento, garantindo compra definida antes mesmo da colheita — uma das lições mais importantes aprendidas com o passado. A maior parte segue primeiro para uma das 12 descaroçadoras já reativadas no estado, com mais oito em implantação, e depois segue para indústrias de Pernambuco, Paraíba, Ceará e São Paulo. Uma pequena parcela começa a ser exportada pelos portos de Natal e Suape. Ainda assim, o escoamento continua como um dos principais entraves: o frete rodoviário chega a corresponder a até 15% do valor final do produto, encarecendo a mercadoria e reduzindo a vantagem competitiva, enquanto a Ferrovia Transnordestina ainda não opera em toda a sua capacidade para escoar a produção.

Como se evita repetir os mesmos erros

O que mais diferencia esse momento é a preocupação em construir algo duradouro. Diferente do passado, quando havia revolvimento total do solo, desmatamento e aplicação massiva de defensivos, hoje adota-se o plantio direto na palha, rotação com outras culturas e manejo integrado de pragas, que reduziu o uso de agrotóxicos em mais de 60%. A irrigação por gotejamento ou aspersão economiza cerca de 40% de água.

No caso específico do bicudo, que quase extinguiu a cultura, hoje se faz monitoramento contínuo com armadilhas distribuídas estrategicamente em todas as áreas produtivas, liberação de insetos estéreis para reduzir a reprodução da praga e ações integradas entre produtores em toda a região — trabalho que evita que a praga se espalhe novamente de forma descontrolada. A expansão segue ritmo compatível com a capacidade de absorção do mercado, e sempre se estimula a diversificação na propriedade, nunca a monocultura absoluta. Conforme levantamento conjunto da Secretaria Estadual de Agricultura, Emater-RN e Banco do Nordeste, referente ao primeiro semestre de 2026, cerca de 8 a 10 mil postos de trabalho já foram recuperados ou reinseridos na cadeia produtiva — número inferior ao registrado antigamente por causa da mecanização, mas com perspectiva de chegar a cerca de 25 mil quando a meta de área for atingida até 2028. A agricultura familiar já responde por 18% da área atual e deve ampliar essa participação com políticas específicas.

O que isso representa para o Rio Grande do Norte de hoje

Nos municípios onde o algodão fez parte da história de gerações, o retorno das lavouras desperta o sentimento de que é possível reconstruir. A volta da Feira Estadual do Algodão, após 25 anos sem ser realizada, é um sinal desse movimento. Não se espera que tudo volte a ser como era antes, mas sim que essa cultura volte a ser uma das bases da nossa economia, gerando trabalho, renda e desenvolvimento que possam ser levados adiante por muitos anos.

O que vivemos hoje não é uma simples volta ao passado. É a construção de um novo ciclo, alicerçado em tudo o que aprendemos com os acertos e os erros de antigamente. É o algodão que volta às terras potiguares, mas agora com a segurança necessária para não ser apenas um momento passageiro.

Fontes pesquisadas: Conab, Embrapa Algodão, Emater-RN, Banco do Nordeste e Secretaria Estadual de Agricultura.

Foto: Reprodução

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Postado por Eryx Moraes

Jornalista potiguar, nascido em 25 de março de 1985, em Felipe Guerra-RN. Ao longo da carreira, atuou em jornais impressos como O Vale do Apodi e News 360, além de rádios como FM Boas Novas, FM Liberdade (Felipe Guerra) e Rádio Rural de Mossoró. Atualmente, é chefe de redação do portal Mossoró News e chefia a Comunicação do Governo Municipal de Felipe Guerra-RN.

Detentor de amplo conhecimento acadêmico na área do Direito, Eryx também é empreendedor no ramo da perfumaria e da venda direta, unindo experiência em comunicação e gestão a habilidades empresariais.

Reconhecido pelo impacto de seu trabalho no jornalismo regional, recebeu a Cidadania Mossoroense, concedida pela Câmara Municipal de Mossoró-RN, e a Comenda Pedra e Abelha, honraria da Câmara Municipal de Felipe Guerra-RN destinada a filhos da terra que se destacam profissionalmente em outras cidades e regiões.

Com sólida experiência em política, economia, cultura e questões sociais, Eryx se destaca por sua competência, versatilidade e credibilidade, consolidando-se como referência no jornalismo potiguar e como profissional multifacetado em diferentes áreas.

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