Quem chega aos nossos anos, com a história que carregamos, aprende a ler com mais clareza os gestos e as intenções. Percebemos que, com o tempo, a lógica que passou a reger grande parte das aproximações é a de buscar sempre levar alguma vantagem. Muitos chegam interessados no seu prestígio, na sua voz que ressoa, nos contatos que construiu ou na condição que conquistou. E na maioria das vezes, só permanecem enquanto aquilo que buscam estiver ao alcance. Se um dia você não puder mais oferecer o que lhes interessa, se afastam sem hesitar, como se nunca tivessem vindo.
O pior é que essa busca costuma vir muito bem disfarçada: chega com sorrisos, palavras doces e uma aproximação que parece a mais sincera do mundo. E demoramos bastante para perceber que, por trás de tudo, havia apenas um interesse específico, nunca uma vontade real de conviver conosco.
É preciso saber diferenciar: é natural que quem esteja ao seu lado também queira compartilhar o que você construiu, pois numa relação verdadeira se soma tudo. O que não é natural é chegar apenas para se aproveitar de suas conquistas, ignorando quem você realmente é. Por isso, encontrar alguém que chega sem essa conta prévia é algo raro, quase um tesouro. Essa pessoa procura você, não o que você tem. Quer estar com você para dividir também as frustrações, os sonhos que ainda não deram certo, as dúvidas e aqueles silêncios que nem precisam ser preenchidos. Fica ao seu lado mesmo nos dias em que você não tem nada a oferecer, nem mesmo ânimo para falar. Não pede nada além da sua presença, e entrega a dela sem medo nem reserva.
Num mundo que nos ensina desde cedo a sempre levar vantagem em tudo, reconhecer e guardar esse tipo de relação é um ato de sabedoria e também de resistência. Nenhuma posição, nenhum bem, nenhum privilégio vale o que vale uma companhia que permanece por escolha, não por conveniência. Aprenda a valorizar acima de tudo quem está ali porque quer estar com você — e não com o que você representa.
Foto: Reprodução

