Dizemos isso a nós mesmos e aos outros como se fosse uma lei natural: “não se preocupe, o tempo resolve tudo”. Mas essa frase não é uma verdade — é um alívio. E como todo alívio fácil, tem um preço alto: nos isenta de fazer qualquer coisa agora.
O tempo por si só não resolve nada. Ele não tem vontade, não tem justiça, não tem capacidade de apagar ou consertar. O tempo apenas passa. O que muda é o que nós fazemos enquanto ele passa: se paramos para entender o que aconteceu, se aceitamos o que não podemos alterar, se buscamos formas de lidar com a dor — ou se preferimos virar o rosto e fingir que, com o passar dos dias, o problema deixará de existir.
O que costumamos chamar de “cura com o tempo” é quase sempre apenas o hábito. Acostumamo-nos com a ausência, com a injustiça que não foi corrigida, com o erro que não pediu perdão. Acostumar não é resolver: é apenas parar de reclamar, parar de tentar, parar de exigir que a realidade seja diferente. E enquanto nos acostumamos, o que não enfrentamos permanece lá: não dói mais com a mesma intensidade, mas continua interferindo nas escolhas, nas relações, na forma como vemos o mundo.
Acreditamos nessa ilusão porque ela nos protege da nossa própria limitação. É muito mais confortável esperar que os anos tragam a resposta que não conseguimos encontrar, do que admitir que não sabemos o que fazer, ou que temos medo de tentar. É mais fácil culpar a demora do que assumir a responsabilidade de agir.
Há sim momentos em que o tempo nos ajuda: não para resolver, mas para nos dar distância suficiente para ver o que antes estava muito perto para ser entendido. Mas isso é um recurso que aproveitamos — não um presente que o tempo nos entrega de mão beijada. Se não usarmos essa distância para refletir, ela não serve para nada.
Quem espera passivamente que o tempo arrume as coisas, acaba percebendo tarde demais: o tempo não só não resolve, ele também fecha portas. Oportunidades de consertar, de dizer, de recomeçar não ficam abertas para sempre. E o que adiamos sem enfrentar não desaparece — só muda de forma, se transforma em arrependimento, e esse sim, o tempo não consegue levar embora.
No fim, não é o tempo que nos liberta. É a nossa decisão de deixar de esperar por ele, e começar a lidar com o que está diante de nós, hoje.
Imagem: Reprodução


