Desde cedo, as mensagens chegam não só em frases explícitas, mas em cada olhar de reprovação ao choro, em cada elogio à “resistência calada”, na ideia de que procurar auxílio é sinal de que não se deu conta do recado. Essas normas não são apenas costumes familiares: elas formam um tabu estrutural, reforçado pelo mercado de trabalho, pela cultura sertaneja e pelo imaginário social que exige do homem brasileiro a figura do provedor invulnerável. Quem demonstra limites corre o risco de ser visto como pouco capaz, fraco ou indigno de confiança — e assim o sofrimento emocional vira algo que se aprende a esconder, não a tratar. O silêncio não protege: ele acumula, adoece e mata.
Dados do Ministério da Saúde e do Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM/DATASUS, série histórica 2002–2023) mostram que 78,6% das mortes por suicídio no Brasil são de homens — proporção que chega a quase 80% no Rio Grande do Norte e em estados vizinhos do Nordeste. A taxa nacional é de 9,9 óbitos por 100 mil habitantes entre homens, contra 2,6 entre mulheres: quase quatro vezes maior. Estudo da Fiocruz de 2025 confirma que homens de 15 a 29 anos representam 61,3% das internações por transtornos mentais no SUS, com taxa 57% superior à feminina; o abuso de álcool e outras substâncias, muitas vezes uma válvula de escape para o sofrimento não nomeado, é a causa associada em 38,4% desses casos.
Revisão sistemática publicada na revista Men and Masculinities (2025), com 42 estudos e mais de 48 mil participantes, explica que a adesão rígida a esses padrões reduz em até 64% a disposição em reconhecer sintomas ou buscar apoio. Pesquisa da UFMG de 2024 acrescenta: mesmo quando percebem que não estão bem, 7 em cada 10 homens preferem lidar com o problema sozinhos — e esse comportamento é ainda mais frequente entre trabalhadores rurais, da construção civil e de faixas etárias acima de 40 anos, onde a “fortaleza pessoal” é tratada como condição de sobrevivência e sustento da família.
Esse bloqueio não é falha de caráter: é aprendizado internalizado. Estudos de psicologia social brasileira mostram que meninos já aos 6 anos são orientados a reprimir tristeza, medo ou carinho — emoções que passam a ser rotuladas como “incompatíveis” com o que se espera de um homem. Com o tempo, cria-se o que a ciência chama de expressão indireta do sofrimento mental: em vez de dizer “estou exausto”, “não estou conseguindo lidar com isso” ou “preciso de ajuda”, o sofrimento se transforma em irritação constante, dedicação excessiva ao trabalho, riscos desnecessários ou consumo prejudicial.
Há também barreiras práticas e institucionais. Os serviços de saúde mental ainda costumam partir da premissa de que todos sabem nomear o que sentem e querem falar longamente sobre si mesmos — o que não corresponde à forma como muitos homens foram educados. Quando não há uma linguagem mais prática, focada em resolução de problemas e não apenas em “sentimentos”, a procura fica ainda mais rara. Há experiências bem-sucedidas no país: grupos organizados em sindicatos, associações rurais e projetos locais que usam conversas sobre trabalho, rotina e relações para chegar ao sofrimento sem exigir exposição forçada.
Aceitar que não estamos bem não é fraqueza, nem rendição. É reconhecer limites, como reconhecemos quando o corpo adoece. Quebrar esse silêncio não significa expor-se publicamente ou mudar quem somos: significa simplesmente dizer “estou sobrecarregado”, “isso está me machucando” ou “não consigo resolver isso sozinho”. Essa é a força que realmente faz diferença: a de não carregar tudo sozinho e preservar o que realmente importa — a própria vida e as pessoas que amamos.
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