Não é novidade que os candidatos que lideram a disputa presidencial costumam também ocupar o topo dos índices de rejeição. O que chama particular atenção nos dados da pesquisa Genial/Quaest sobre a eleição de 2026 é o patamar atingido: agora vemos ambos ultrapassarem claramente a barreira dos 50% — Flávio Bolsonaro com 54% e Lula com 52% de eleitores que afirmam não votar em nenhum dos dois de jeito nenhum. Como chegamos a este ponto em que a principal escolha do país recai exatamente sobre os nomes que a maioria da população repudia?
- Uma polarização estrutural, não apenas uma escolha ou estratégia
A divisão observada ao longo da última década não se resume a uma “guerra de lados” ou apenas a uma estratégia de comunicação para desgastar adversários. Do ponto de vista da ciência política, trata-se de uma polarização afetiva e estrutural: alimentada por profundas desigualdades sociais que geram visões de mundo muito distintas, pela queda generalizada de confiança nas instituições e pela forma como as plataformas digitais reestruturaram a circulação de ideias, agravando posições extremadas. O resultado é que as identidades políticas passaram a valer mais do que as propostas, e a hostilidade ao outro grupo sobrepôs-se à avaliação racional de cada candidato. Nesse processo, ambos os lados trabalharam incessantemente para desconstruir a imagem do oponente, mas acabaram por corroer também a própria credibilidade da política e, consequentemente, a deles mesmos. Flávio herda não apenas o capital político do grupo que liderou o país anteriormente, mas também todo o desgaste acumulado daquela gestão; Lula, por sua vez, carrega o que a literatura denomina desgaste cíclico de longa permanência na cena pública: quanto mais tempo um nome permanece no centro do debate nacional, maior a probabilidade de acumular críticas, insatisfações e polêmicas, independentemente de seus feitos.
- Mecanismos institucionais que concentram as opções
Não é apenas que “se fecham as portas a novos nomes”. O que vemos é o funcionamento concreto das regras do sistema eleitoral brasileiro: a combinação entre o tempo de propaganda eleitoral gratuito, o financiamento público majoritariamente direcionado às legendas maiores, a cláusula de barreira que dificulta a presença de partidos menores e a própria lógica do sistema majoritário para presidente cria o que podemos chamar de colégio eleitoral informal. Para chegar à disputa principal, é necessário articulação política e capacidade de investimento que poucas legendas conseguem reunir, filtrando as alternativas muito antes de o eleitor chegar às urnas. Diante disso, a população se vê diante de uma falsa dicotomia: não que não existissem outras opções viáveis, mas elas simplesmente não conseguem chegar ao alcance da maioria do eleitorado. O que se observa não é apenas “saber o que não quer e não saber o que quer”, mas sim o que se classifica como descontentamento sem alternativa estruturada: a rejeição não é homogênea — parte dela é de natureza programática, parte pessoal, parte apenas de descrença generalizada — mas não encontra canal para se converter em outra escolha viável dentro das regras vigentes.
- O fenômeno da rejeição cruzada
O dado mais relevante que esses números revelam, e que costuma passar despercebido em análises superficiais, é o que chamamos de rejeição cruzada em patamar majoritário: uma parcela expressiva do eleitorado rejeita igualmente os dois candidatos principais. Trata-se de um quadro que combina antipolítica — a desconfiança para com toda a atividade política tradicional — com a própria polarização: o eleitor odeia tanto o candidato do campo oposto que não consegue se sentir confortável nem mesmo com a opção do seu próprio campo. Esse sentimento também está ligado ao cansaço de uma década marcada por instabilidades, crises sucessivas e a sensação disseminada de que, independentemente de quem vença, as mudanças efetivas na vida cotidiana serão pequenas ou nulas. Para muitos, Lula representa o risco de retorno a modelos já conhecidos com seus erros e limitações; Flávio representa a manutenção de um clima de confronto que já demonstra ter esgotado sua capacidade de gerar avanços.
- O que isso antecipa para o futuro da governabilidade
Ter os dois candidatos com rejeição acima de 50% significa que, independentemente do vencedor, ele governará sob o que a ciência política denomina oposição majoritária pré-existente: mais da metade da população já chega ao início do mandato contrária à sua presença no cargo. Isso representa um desafio imenso para a formação de consensos, a aprovação de reformas e a própria sustentação da governabilidade ao longo de todo o mandato. Não se pode afirmar de forma automática que isso significa o fim de um modelo, como costuma-se dizer de forma simplista: ao longo da história houve vitórias com altos índices de rejeição sem que houvesse rupturas imediatas. Mas é, sem dúvida, um alerta muito forte: o modo como organizamos a disputa eleitoral e a própria representação política já não corresponde à diversidade de anseios da sociedade brasileira. Chegamos a esse ponto porque aceitamos reduzir o país a apenas dois campos, e porque deixamos que a política se organizasse em função da disputa de poder entre esses grupos, em vez de se organizar em função das soluções que a população realmente demanda. Agora, esses números deixam evidente: há uma desconexão cada vez maior entre a oferta política que o sistema consegue produzir e o que a população de fato procura.
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