Na última semana, a Igreja Presbiteriana Unida anunciou regulamentação que define a participação de pessoas LGBTQIAPN+ na comunidade: assegura o direito de pertença, convívio e participação geral, mas estabelece critérios doutrinários para o exercício de cargos de liderança, ordenação e ensino. A medida reacendeu uma discussão que não é nova, mas que frequentemente se perde em extremos: uns tratam a questão como se houvesse uma única resposta fechada; outros como se tudo fosse relativo. Para além da polêmica, vale retornar diretamente à Palavra que fundamenta a fé — e separar o que é claro, o que é interpretável e o que pertence ao juízo de Deus.
Primeiro princípio inegociável: todos são chamados ao acolhimento
Jesus não recebeu pessoas porque elas já estavam “certas”, mas porque elas precisavam da verdade e da graça. Ele acolheu publicanos, prostitutas, samaritanos e todos quantos vinham até Ele — sem exigir pré‑condições para entrar, mas convidando‑os a uma vida nova. O apóstolo Paulo escreve em Gálatas 3:28: “Não há judeu nem grego, escravo nem livre, nem homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus”. Essa igualdade não é uma concessão humana: é uma realidade espiritual. Em Romanos 15:7, a ordem é direta: “Recebei‑vos uns aos outros, pois, como também Cristo vos recebeu para glória de Deus”. Recusar pertença a quem busca a Deus contraria o próprio coração do Evangelho.
Muito do que se vê no país, infelizmente, não vem da Escritura, mas de interpretações radicais, tiradas de seu contexto original — e que acabam alimentando preconceito e afastando pessoas da fé. Nesse sentido, a postura da Igreja Presbiteriana Unida não a leva ao descrédito: muito pelo contrário, representa uma evolução importante. Evolução não é abandonar a doutrina: é passar a ler a Palavra com mais cuidado, mais amor e mais fidelidade ao seu sentido original, deixando de lado rigidezes que nunca fizeram parte do Evangelho.
Segundo ponto: liderança não é direito universal, é encargo de testemunho
A distinção que gera divergência não é sobre quem pode estar na igreja, mas sobre quem pode servir à frente dela. 1 Timóteo 3 e Tito 1 apresentam o perfil do bispo ou ancião: irrepreensível, marido de uma só mulher, sóbrio, respeitável, hospitaleiro, apto a ensinar, exemplo para os crentes. Não são regras arbitrárias: o líder exerce autoridade doutrinária e moral — seu modo de viver reflete o que se ensina.
É aqui que nasce a divergência legítima: uma corrente interpreta esses textos como referência à ordem criadora estabelecida em Mateus 19:4‑6; outra compreende que a nova criação em Cristo reconfigura aplicações culturais ou contextuais, mantendo o princípio da fidelidade e da integridade sem restringir‑se a formas antigas. Nenhuma visão deve ser descartada levianamente — ambas buscam obedecer à Escritura, mas com lentes diferentes. O que não se pode aceitar é que a defesa de uma doutrina sirva de pretexto para julgamentos que a própria Bíblia proíbe.
Terceiro: o que torna alguém repreensível é a escolha, não a identidade
Os textos que tratam de conduta — como Romanos 1:26‑27 e 1 Coríntios 6:9‑10 — referem‑se a práticas deliberadas, não a inclinações que não se escolhem. E o versículo seguinte é decisivo: “E é o que alguns de vós éreis; mas fostes lavados, mas fostes santificados, mas fostes justificados em nome do Senhor Jesus e pelo Espírito do nosso Deus” (1 Coríntios 6:11).
A Escritura não condena quem luta com si mesmo e busca Deus; ela adverte quem adota o desvio como norma ou doutrina. E a mesma medida vale para todos: adultério, mentira, ganância, hipocrisia — condutas que também podem ser praticadas por pessoas heterossexuais — desonram a fé independentemente de orientação. Não há grupo que detenha a virtude ou o erro em exclusividade.
Quarto: autonomia jurídica não significa desvinculação ética
Do ponto de vista legal, a Constituição Federal assegura liberdade religiosa e autonomia das instituições de fé para definirem suas regras internas — inclusive critérios para ministério — desde que não neguem direitos fundamentais ou pratiquem discriminação ilegal. A linha que separa “definir requisitos” de “excluir pessoas” é clara: restringir o ofício não é o mesmo que fechar a porta à comunhão.
A decisão da Igreja Presbiteriana Unida não encerra o debate, mas nos devolve à humildade necessária: a igreja existe para acolher e para testemunhar. Acolher sem discernimento perde a verdade; discernir sem amor perde o sentido. Como escreveu Paulo em 1 Tessalonicenses 5:21‑22: “Examinai tudo; retende o que é bom; abster‑vos de toda aparência de mal”. E acima de tudo permanece a advertência de Romanos 14:4: “Quem és tu, que julgas o servo alheio? Para seu próprio senhor ele está em pé ou cai; mas será mantido em pé, porque poderoso é o Senhor para o firmar”.
No fim, essa polêmica revela o que a igreja sempre foi: comunidade de pessoas imperfeitas, buscando a verdade em conjunto. O que une não é a concordância em cada detalhe, mas a fé em Cristo que acolheu a todos — e que confia a nós o cuidado com a casa, sem nos dar o direito de assumir o lugar do Juiz. E a decisão recente mostra que é possível caminhar com a verdade, sem deixar que o preconceito ou a interpretação radical ocupem o lugar do amor.
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