Assistir ao vídeo em duas partes divulgado por Michelle Bolsonaro me fez parar para refletir. Vi de tudo quanto é opinião por aí e a web realmente tem comentado bastante o assunto. Em regra não se pode negar que ela tem suas razões, mas é difícil não perceber que o momento escolhido para se manifestar foi no mínimo inoportuno.
Não quero aqui fazer julgamento do que ela vivenciou ou de tudo o que expôs, mas sim trazer luz para essa especulação como forma de fazer entender melhor as suas reais motivações, um pensamento muito mais voltado para si mesma do que para o coletivo. Michelle sabe muito bem do seu próprio potencial. Ela entende que foi preterida por Bolsonaro e tem consciência de que poderia estar na disputa já em 2026, sendo uma candidata tão competitiva quanto Flávio Bolsonaro ou talvez até mais. E por que digo isso? Porque ela agruparia toda a base do bolsonarismo e ainda teria um trânsito muito mais fácil junto ao eleitorado feminino, um público que responde muito bem à sua imagem e que certamente votariam nela também.
Michelle reuniria tudo o que o bolsonarismo é capaz de reunir e ainda iria além, com uma penetração social e eleitoral que certamente seria maior do que a de Flávio. Isso é evidente para quem acompanha a política de perto. Mas há um detalhe importante. Ela carrega o sobrenome Bolsonaro por meio da certidão de casamento e não por laços de sangue. Esse detalhe faz toda a diferença.
E aqui cabe uma observação. Ao longo desses anos ficou clara a forma centralizadora com que a família Bolsonaro costuma conduzir a liderança da direita. Muitas vezes as decisões e os espaços de poder são definidos quase exclusivamente com base no vínculo de sangue, como se apenas quem carrega o sobrenome por herança tivesse legitimidade para representar o grupo. Essa visão fechada acaba deixando de lado outras lideranças que também têm força, representatividade e capacidade de aglutinar eleitores e Michelle é um exemplo claro disso.
Enquanto isso, Flávio corre contra o tempo tentando atenuar os efeitos do desgaste e reverter a situação, buscando levar Michelle para o seu palanque. Aliás, vale lembrar que ela de fato ainda não esteve ao lado dele e tem resistido firme a esse chamado. Resta saber se ela vai repensar essa postura.
Afinal, ela aparenta estar agindo com foco prioritário em si mesma e não necessariamente em prol dos interesses de toda uma parcela do país. São mais de cinquenta e oito milhões de brasileiros que se alinham à direita, que votaram no seu esposo e que também sinalizariam apoio a ela se ela assim permitisse.
Partindo desse entendimento fica claro que ela decidiu voltar seus olhos para 2030 e não mais para 2026. Ela sabe que em caso de reeleição de Lula uma composição entre ela e Tarcísio de Freitas se torna um caminho muito natural para a disputa seguinte. A chapa poderia ser montada de duas formas, mas a mais provável é Tarcísio como candidato a presidente e Michelle na vaga de vice.
A forma e o momento em que Michelle escolheu trazer à tona tudo o que expôs mostram que ela pensou primeiro em si mesma. A defesa do PL Mulher, as críticas feitas e o repúdio ao apoio dado a Ciro Gomes no Ceará, por exemplo, servem como pano de fundo, mas o foco principal está na construção da sua própria imagem e do seu próprio caminho.
E isso nos leva a uma pergunta que não quer calar. Será que convém a Michelle que Flávio Bolsonaro perca a eleição deste ano? A resposta é certamente sim e explico por quê.
Se Flávio sair vitorioso em 2026 ele se consolida como a liderança natural da sucessão e ocupa o espaço que Michelle poderia almejar para o futuro. Mas se ele não conseguir o resultado esperado abre-se uma brecha enorme para que ela apareça como a alternativa capaz de unir o grupo, corrigir os rumos e representar a continuidade daquilo que o eleitorado conservador e bolsonarista busca. Uma derrota de Flávio enfraquece a linha sucessória direta por laços de sangue e ao mesmo tempo fortalece a tese de que é preciso uma liderança que tenha maior capacidade de diálogo e de aglutinação de forças. Nesse cenário o nome dela ganha ainda mais destaque.
Ao afastar-se publicamente da candidatura de Flávio agora ela já deixa claro que não quer ser responsabilizada por um resultado que não lhe convém. Ela se posiciona de forma independente, guarda sua força e espera o momento certo para entrar em cena. Para quem já está olhando para 2030, ver uma candidatura concorrente enfraquecer não é um problema, é uma oportunidade.


